Os reis são coroados, surgindo das chamas e do sangue; multidões se curvam, entoando cânticos aos pés do trono! O destino nunca se compadece por amor, nem se mostra justo diante da grandeza; a lei que governa é a sobrevivência dos mais fortes! O canhão serve apenas para medir o território; dentro do alcance, tudo é verdade! E neste século das grandes navegações, dominado por navios colossais e artilharia pesada, só há uma verdade... tudo pertence a quem toma! “Espere! O que existe além-mar? Retirada, recu... ah—!” As grandiosas entidades do último ciclo já foram engolidas pela epopeia, e mortais ignorantes ascendem na brecha, polindo seus canhões e içando velas. Embora este tempo tenha mudado, não mudou por completo. Byron, munido de seu Diário de Navegação, mergulha de cabeça nesta era misteriosa, selvagem e sangrenta, mas também vacilante e à beira do abismo. Sobrevivendo por sorte à guerra pelo trono das Rosas Vermelha e Branca, pisa no sobrenatural graças ao sangue do povo pirata da baía, e ascende na Escada da Glória. Com sua Lei de Ferro Real – o Código Pirata, impõe sua vontade sobre os Sete Mares e é coroado como a Caçada Furiosa: o Rei Tempestuoso que devora sangue. Só então percebe que este vasto e azul mundo, prestes a afundar, talvez precise de um novo capitão.
Dor! Uma dor indescritível!
Byron sentia como se um ferro afiado atravessasse seu peito, gélido e debilitante, com algo precioso fugindo rapidamente pelo buraco. Cada nervo convulsionava intensamente, soltando gritos e lamentos insuportáveis. Contudo, ele permanecia inconsciente, preso numa longa noite de sonhos, como se estivesse sob o jugo de um pesadelo.
Naquele sonho, havia dois de si mesmo, e duas vidas completamente distintas.
O primeiro Byron nasceu num orfanato, limitado pela realidade, mas nutrindo o sonho de viajar pelo mundo. Mal começara a trabalhar, ainda longe de juntar dinheiro suficiente, foi acometido por uma doença rara — esclerose lateral amiotrófica. Aos poucos, perdeu todas as funções do corpo, até não conseguir se mover, falar, engolir ou respirar por conta própria. Sua carne tornou-se a prisão da alma, e ele morreu sozinho, desamparado e desesperado.
O outro Byron, embora tenha perdido a mãe ao nascer, tinha um pai rigoroso mas afetuoso, e uma grande família unida. Havia um tio atormentado por distúrbios mentais, mas quase sempre sábio e bondoso; uma tia bela e gentil, que o tratava como filho; um primo que o levava para caçar, praticar esgrima, equitação e navegação; uma amiga de infância, sempre ao seu lado nas travessuras; muitos familiares solidários; vassalos leais, servos, cavaleiros protetores...
O inquietante era que essas duas vidas, vistas no sonho, pareciam separadas por um vidro opaco, desde o princípio turvas e indistintas. Nada de concreto podia ser recordado, como se Byron contemplasse flores através da